quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

A latinha de torresmo e biscoito da Bodega do Meu Avô

Meu avô postiço tinha uma mistura de bar e bodega. Meu avô mesmo, o biológico, por parte de mãe, não conheci, só namorava a foto dele e gostava de ouvir as histórias contadas por outros sobre ele.
"Queria tê-lo conhecido", não dizia com essas palavras, mas sentia sem falar. Do avô paterno nem história se contava. Sentimento nulo. Acho triste,  mas é a vida.
Então meu avô mesmo era o postiço. Além de mim eram postiços outros três primos meus, netos. Um menino,  apenas mais velho que eu alguns meses e duas meninas. Eles eram menos postiços que eu. Mas depois, noutra crônica conto pra vocês.
Mas como eu dizia, meu avô tinha um bar e uma bodega no mesmo espaço. Ele vendia mais cachaça do que arroz, feijão,  bolacha, querosene,  fósforo, Coca-Cola.
A coisa tinha um balcão alto que quem estava de dentro só via a cabeça e a mão que pegava o copo de pinga.
E como quem bebe quer algum tira-gosto, meu avô tinha uma latinha em que ele botava torresmo e bolachas pequenas. Cada dose tomada era dado ao homem ou a mulher que levantava o copo em brinde a alguma coisa da vida uma ou duas bolachinhas um ou dois torresminhos.
Os que bebiam apareciam mais de manhã e final de tarde. A latinha ficava ali nesse intervalo toda solitária. Era a vez de nós,  netos posticos e meio posticos tirar o gosto. Em pouco tempo quase tudo ia embora da latinha.
Meu avô brigava, gritava mas nunca tirava a latinha de lá nem deixava ficar vazia.
Acho que ele se divertia achando que nós, os ladrões postiços, não sabíamos que ele sabia de nosso crime.
Era sua maneira de nos pagar pelo tempo que "olhávamos " a bodega enquanto ele tirava uma soneca.