segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

UM CONTO

O poder estava comigo. Disse para mim mesmo: hoje à tarde vou ficar em casa. Vou me dar de presente a tarde. Vou dormir. Vou ler. Sossegar. Escrever. Menos trabalhar.

Minha casa limpa de dar gosto, favor de minha mulher, e eu, depois do almoço estirado na cama, um livro nas mãos, mas não fui capaz de ler cinco páginas de um capítulo de dez. O sono me dominou.

Dormi. Sonhei com coisas que me deram saudades. Situações que me deram esperanças. Sonhei com coisas que me agitaram, mas que não foram capazes de me tirar de minha decisão de ficar invisível curtindo comigo mesmo a tarde que esse escolhi.

Quando deitei depois do almoço estava com minha mulher na cama, acordei e era meu filho que estava lá, estranho... Pernas limpas. Fortes. Grandes. Novas. Pensei: já tive pernas assim. Meu filho dormindo de bruços descobri nele um sinal na perna igual ao meu sendo a diferença que nele era na parte contrária da minha.

O ventilador soprava no quarto um barulho rouco. Acordei pelo costume de sair para trabalhar, mas dessa vez não iria, havia decidido ficar em casa. Uma parte do sonho que tive deixou em mim um gosto bom na minha alma. Quando a gente sonha os fatos acontecem em sequência como vê um filme sem comercial. Às vezes escolho com o que quero sonhar e dá certo, nessa tarde não escolhi. Sonhei coisas boas e outras não.

Sai da cama sem fazer barulho, meu filho dormia. Acho que como eu havia feito, ele deve ter decidido se dar aquela tarde, mas menino sempre tem as tardes livres. Peguei o livro para reiniciar a leitura de onde parei. A casa que continuava muito limpa me convidou a deitar no chão para ler.

Minha mulher trabalhava na máquina de coser falou qualquer coisa sem importância pra mim porque falou muito baixo. Acho que a seu modo estava em paz. Fazia o de que gostava. Desisti do livro e pensei em ligar a tv. Podia fazer o que quisesse nessa tarde. Tinha o poder para isso.

A vida lá fora não me interessava. Escrevi um poema pela metade esperando a inspiração chover sobre mim mais tarde. Inspiração é uma coisa alouca. Vem quando quer e desaparece na hora que lhe dá na telha.

Olha se tem café, disse minha mulher, em seguida comentou algo de minha neta imitando a vozinha dela e comentou de algo na rua, outro ventilador soprava um vento gostoso e um barulho chato e eu em mim mesmo.

Algo me aborreceu e tive que sair para resolver. Quebrou-se por um instante minha estabilidade. Resolvi. Era algo chato e para piorar debaixo do sol das três da tarde. Tomei um banho para resfriar os pensamentos, fazer o rescaldo e voltar para meu estado meditativo daquele dia.