quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

O GALO (Microconto)

O galo não contou hoje. Aliás, já faz dias que o galo não canta. É um galo de rinha, galo de briga. Precisa manter a pose de durão se não os outros não o respeitam e o dono o joga na panela. Um dia o galo se traiu, era uma segunda-feira e cantou fora de hora, seu dono não o ouviu e ele se livrou de ser jogado na panela. Os galos da cidade não vivem para cantar. Vivem para brigar e procriar. Brigar e procriar. Brigar e procriar. E servir os pratos.

A DÚVIDA (Microconto)

Dúvida. Leio o livro do qual estou enamorado ou vejo a tv. ou lavo a louça que está acumulada na pia ou faço minha devoção para com Deus. Vou empurrando com a barriga o que é preciso fazer só para depois ter que fazer tudo de uma vez. Li o livro, deixei-o de lado, corri pra pia e lavei as louças acumuladas e vi tv ao mesmo tempo. Cuidei da alma. Não se pode viver fugindo das obrigações.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

AS SAÍDAS DA VIDA (MICROCONTO)

Naquele dia abri a mochila e tirei um dos três livros que levei para ter o que ler e esquecer o percurso chato que se movia pela janela do coletivo. Na fila me espremi para entrar o mais rápido possível e encontrar um lugar para sentar no coletivo e ler; não consegui. Marcava a página com um de meus dedos e me equilibrava no ônibus lendo. Do meu lado uma moça também se equilibrando para ler as mensagens vinda de uma de suas redes sociais em seu celular. Na cadeira à minha frente duas senhoras trocavam número de telefone anotando nas antigas agendinhas de papel e se orgulhando disso. Alguns dias lamentava que minhas bicicletas estivessem quebradas me impossibilitando de pedalar que é um dos meus prazeres na vida, me lembrei que foi justamente aí que recobrei o prazer de correr a pé e que venho fazendo até hoje. A vida realmente apresenta boas saídas meu caro amigo. A vida sempre apresenta saídas.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

PASSO PENSADO (Microconto)

Tenho me tornado admirador de quem porta pouca bagagem, ato próprio de quem já percorreu um longo corredor. Ele é agora um grande pensador. Não está cansado. Leciona... É amigo da simplicidade. Do passo pensado.

O AMANHECER (MICROCONTO)

A noite implantou um silêncio gostoso em mim que o dia insistia em querer arrancar. O galo cantou tarde combinando comigo um momento mais longo de quietude. O dia insiste; tenho que ceder a ele. É a vida.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

UMA ORAÇÃO POR UM COMBALIDO

Doutor ando sentindo
Uma dor
Um ardor
Um rancor
Um trator
espremendo meu peito.

Doutor, o senhor entende
De indignação
De desilusão?
Sinto raiva e
Esperança esmagada.

Doutor será alucinação
Tenho visto muito noticiário
De rádio e televisão?

Será por isso, Doutor
Minha desilusão?

Doutor, acho que o senhor não entende.
O senhor é um como eu. Vou fazer uma oração:

Pai Eterno,
Sempre presente na hora de tribulação
Livre meu país dessa podridão.

Eu não posso
O Doutor também não me acode
Mas o Senhor, Pai eterno pode,

Amém



GESTAÇÃO

Me sinto enjoado
Sinto náuseas constantes
Embrulha-me o estômago.
Limão não resolve
Nem mesmo o Dramin
Faz qualquer efeito.

Fui à farmácia
Ir ao médico em nosso país
É muito difícil
Contei a ele o sintoma
Me receitou um teste de gravidez.

Me descobri gestando.
Era um ser disforme
Era um menino
Era um ser estrambótico
Era: meu país.

Outros estão grávidos comigo.
Sentem náuseas
Sentem o estômago embrulhar.

Os pais do menino:
Bêbados devassos
Vomitam carniças
Nas mesas

Desviam os recursos
Da saúde e estabilidade do filho
Porcos selvagens comem tudo á sua volta
Numa fome insaciável.

Estamos enjoados
Gritamos parturiente nas ruas
E não temos atenção
O menino se remexe em nosso ventre
Revoltado odeia seus país.

Estamos enjoados.
Estômagos embrulhando.


quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

INVENTO

Inventar é o ofício
Que persegue o homem.

Inventamos tudo
O de que precisamos
Inventamos até
O de que não precisamos
Aí torcemos a vida
Foi o que viu o sábio
Observando o homem
Em sua oficina de inventar

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

AMAR

Tem explicação pra te amar?
Tem sim.
Só que não sei explicar.
Prefiro sentir.
Prefiro sentir.
Prefiro sentir.
Prefiro te sentir.

Sem ti não dá.

ACHO QUE SOU LOUCO...


Por mim eu parava tudo
E ficava contigo.
Você sabe que sou louco
O suficiente pra essas loucuras.

Por mim jogava tudo pro alto
E pulava nos teus braços.
Perdi o medo do escuro
Quando na primeira vez
Te vi na penumbra.

Perdi minha fobia
De ambiente fechado
Desde o primeiro dia
Que ficamos
A sós.

Aprendi a disfarçar
Desde o dia quando
Te convenci a deixar a multidão
E ficarmos sós. Nós dois.

Consigo prender o fôlego
Por mais tempo
Que o necessário
Quando nos beijamos.

O que mais falta aprender?

Diz baixinho no pé do meu ouvido...

GATO E RATO

Ele: Opa… Desculpa. Esbarrei em ti.

Ele: Foi sem querer.

Ela: Me ajuda a fazer o almoço?

Ele: Não. Estou lendo.

Ele: Se ajudar, posso esbarrar em ti de novo?

Ela: Quem sabe.

Ela: E não foi sem querer?

Ele: Foi. Mas dessa vez pode ser por querer.

Ele: Aceita?

Ele: Calor né?

Ele: Vou tomar banho.

Ele: Quer ir?

Ela: Não. O calor é seu.

Ele: Eita! Podia ser mais educada não?

Ele: Tá me perseguindo?

Ele: Vou pra geladeira tu vem junto.

Ele: Vou pra pia tu vai também.

Ele: Depois reclama se eu esbarrar em ti.

Ela: Pode esbarrar.

Ele: Ah, agora pode?

Ela: Com jeitinho pode.

Ela: Vai fazer o que mais tarde?

Ele: Depende.

Ela:  Voce é quem diz.

Ele: Ah, agora sou eu quem manda?


Ela: Com jeitinho é.

HOMENAGEM A FERREIRA GULAR

José Ribamar Ferreira
Mudou de nome.
Assim como mudou
Nossa percepção das coisas
Nossa visão das situações
Nosso modo de ver a vida.
Gular foi embora

Mas ficou.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

UM CONTO

O poder estava comigo. Disse para mim mesmo: hoje à tarde vou ficar em casa. Vou me dar de presente a tarde. Vou dormir. Vou ler. Sossegar. Escrever. Menos trabalhar.

Minha casa limpa de dar gosto, favor de minha mulher, e eu, depois do almoço estirado na cama, um livro nas mãos, mas não fui capaz de ler cinco páginas de um capítulo de dez. O sono me dominou.

Dormi. Sonhei com coisas que me deram saudades. Situações que me deram esperanças. Sonhei com coisas que me agitaram, mas que não foram capazes de me tirar de minha decisão de ficar invisível curtindo comigo mesmo a tarde que esse escolhi.

Quando deitei depois do almoço estava com minha mulher na cama, acordei e era meu filho que estava lá, estranho... Pernas limpas. Fortes. Grandes. Novas. Pensei: já tive pernas assim. Meu filho dormindo de bruços descobri nele um sinal na perna igual ao meu sendo a diferença que nele era na parte contrária da minha.

O ventilador soprava no quarto um barulho rouco. Acordei pelo costume de sair para trabalhar, mas dessa vez não iria, havia decidido ficar em casa. Uma parte do sonho que tive deixou em mim um gosto bom na minha alma. Quando a gente sonha os fatos acontecem em sequência como vê um filme sem comercial. Às vezes escolho com o que quero sonhar e dá certo, nessa tarde não escolhi. Sonhei coisas boas e outras não.

Sai da cama sem fazer barulho, meu filho dormia. Acho que como eu havia feito, ele deve ter decidido se dar aquela tarde, mas menino sempre tem as tardes livres. Peguei o livro para reiniciar a leitura de onde parei. A casa que continuava muito limpa me convidou a deitar no chão para ler.

Minha mulher trabalhava na máquina de coser falou qualquer coisa sem importância pra mim porque falou muito baixo. Acho que a seu modo estava em paz. Fazia o de que gostava. Desisti do livro e pensei em ligar a tv. Podia fazer o que quisesse nessa tarde. Tinha o poder para isso.

A vida lá fora não me interessava. Escrevi um poema pela metade esperando a inspiração chover sobre mim mais tarde. Inspiração é uma coisa alouca. Vem quando quer e desaparece na hora que lhe dá na telha.

Olha se tem café, disse minha mulher, em seguida comentou algo de minha neta imitando a vozinha dela e comentou de algo na rua, outro ventilador soprava um vento gostoso e um barulho chato e eu em mim mesmo.

Algo me aborreceu e tive que sair para resolver. Quebrou-se por um instante minha estabilidade. Resolvi. Era algo chato e para piorar debaixo do sol das três da tarde. Tomei um banho para resfriar os pensamentos, fazer o rescaldo e voltar para meu estado meditativo daquele dia.


CINISMO

Você não tem um carro?
Sorria.
Vão pensar que você tem.

O dinheiro é pouco?
Sorria.
Vão pensar que você tem mais que um pouco.

As bailarinas não são assim?
Sorriem
Com os dedos em carne viva enquanto dançam.

E todos as acham:
Felizes
Lindas
Leves.

E escreva. Escreva.
Escreva sobre tudo.
Fale dos outros.
Fale de você.
Fale das coisas.
Vão pensar que você sabe tudo.

Cite frases.
Escreva poemas.
Se aventure.

Mas nunca. Nunca mesmo esqueça de sorrir.
Sem seu sorriso você não é nada.


MIX

Vamos entrelaçar as línguas.
É estimulante.
É um exercício emocional.
É um exercício cerebral.

Faça isso!
Há um mundo
A ser explorado.

Diga eu te amo
Mas também:
je t’aime
Yo te amo
I love you

As línguas são órgãos
Sensoriais que têm a
Finalidade de excitar

O pensamento.

AS CORES DE FIDEL

Fidel que nasceu róseo
Ficou verde
Depois branco
E agora cinzas.

O povo:
Um cinza

OUTROS multicolores.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

MINHA CONVERSA COM A PEDRA

Ontem sentei para conversar com uma pedra. Ela me falou de muitas coisas.
Eu achava que pedra não tinha sentimento. Eu estava enganado.
A pedra me disse que tem um caminho e que quem acha o caminho das pedras é porque ficou mais sábio. A pedra me disse que tem medo de água. Água é teimosa. Embora a pedra seja dura a água bate até que fura. A pedra me disse que ficou toda orgulhosa de ter sido a personagem principal do poema do poeta: No meio do caminho tinha uma pedra. Tinha uma pedra no meio do caminho. Tinha uma pedra. No meio do caminho tinha uma pedra. Nunca me esquecerei desse acontecimento... Pedra no sapato é ruim, mas a pedra disse que cada um tem mesmo uma pedra no sapato, mas ela sente muito por isso. A pedra me disse que quem tem pecado não atira a primeira pedra. A pedra que é sempre calada em seu canto tirou o dia para conversar comigo. Quem atira pedra é loco, disse a pedra. Quem quebra pedra é porque não estudou. Quem quebra pedra enquanto descansa é escravo ou trabalhador mal pago. Quem é vidraça não atira pedra. Pedra é diferente da gente, mas ela tira sempre algum tempo para conversar com a gente. A vantagem de conversar com a pedra é que ela não tem pressa de ir-se embora.