quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

O GALO (Microconto)

O galo não contou hoje. Aliás, já faz dias que o galo não canta. É um galo de rinha, galo de briga. Precisa manter a pose de durão se não os outros não o respeitam e o dono o joga na panela. Um dia o galo se traiu, era uma segunda-feira e cantou fora de hora, seu dono não o ouviu e ele se livrou de ser jogado na panela. Os galos da cidade não vivem para cantar. Vivem para brigar e procriar. Brigar e procriar. Brigar e procriar. E servir os pratos.

A DÚVIDA (Microconto)

Dúvida. Leio o livro do qual estou enamorado ou vejo a tv. ou lavo a louça que está acumulada na pia ou faço minha devoção para com Deus. Vou empurrando com a barriga o que é preciso fazer só para depois ter que fazer tudo de uma vez. Li o livro, deixei-o de lado, corri pra pia e lavei as louças acumuladas e vi tv ao mesmo tempo. Cuidei da alma. Não se pode viver fugindo das obrigações.

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

AS SAÍDAS DA VIDA (MICROCONTO)

Naquele dia abri a mochila e tirei um dos três livros que levei para ter o que ler e esquecer o percurso chato que se movia pela janela do coletivo. Na fila me espremi para entrar o mais rápido possível e encontrar um lugar para sentar no coletivo e ler; não consegui. Marcava a página com um de meus dedos e me equilibrava no ônibus lendo. Do meu lado uma moça também se equilibrando para ler as mensagens vinda de uma de suas redes sociais em seu celular. Na cadeira à minha frente duas senhoras trocavam número de telefone anotando nas antigas agendinhas de papel e se orgulhando disso. Alguns dias lamentava que minhas bicicletas estivessem quebradas me impossibilitando de pedalar que é um dos meus prazeres na vida, me lembrei que foi justamente aí que recobrei o prazer de correr a pé e que venho fazendo até hoje. A vida realmente apresenta boas saídas meu caro amigo. A vida sempre apresenta saídas.

segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

PASSO PENSADO (Microconto)

Tenho me tornado admirador de quem porta pouca bagagem, ato próprio de quem já percorreu um longo corredor. Ele é agora um grande pensador. Não está cansado. Leciona... É amigo da simplicidade. Do passo pensado.

O AMANHECER (MICROCONTO)

A noite implantou um silêncio gostoso em mim que o dia insistia em querer arrancar. O galo cantou tarde combinando comigo um momento mais longo de quietude. O dia insiste; tenho que ceder a ele. É a vida.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

UMA ORAÇÃO POR UM COMBALIDO

Doutor ando sentindo
Uma dor
Um ardor
Um rancor
Um trator
espremendo meu peito.

Doutor, o senhor entende
De indignação
De desilusão?
Sinto raiva e
Esperança esmagada.

Doutor será alucinação
Tenho visto muito noticiário
De rádio e televisão?

Será por isso, Doutor
Minha desilusão?

Doutor, acho que o senhor não entende.
O senhor é um como eu. Vou fazer uma oração:

Pai Eterno,
Sempre presente na hora de tribulação
Livre meu país dessa podridão.

Eu não posso
O Doutor também não me acode
Mas o Senhor, Pai eterno pode,

Amém



GESTAÇÃO

Me sinto enjoado
Sinto náuseas constantes
Embrulha-me o estômago.
Limão não resolve
Nem mesmo o Dramin
Faz qualquer efeito.

Fui à farmácia
Ir ao médico em nosso país
É muito difícil
Contei a ele o sintoma
Me receitou um teste de gravidez.

Me descobri gestando.
Era um ser disforme
Era um menino
Era um ser estrambótico
Era: meu país.

Outros estão grávidos comigo.
Sentem náuseas
Sentem o estômago embrulhar.

Os pais do menino:
Bêbados devassos
Vomitam carniças
Nas mesas

Desviam os recursos
Da saúde e estabilidade do filho
Porcos selvagens comem tudo á sua volta
Numa fome insaciável.

Estamos enjoados
Gritamos parturiente nas ruas
E não temos atenção
O menino se remexe em nosso ventre
Revoltado odeia seus país.

Estamos enjoados.
Estômagos embrulhando.


quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

INVENTO

Inventar é o ofício
Que persegue o homem.

Inventamos tudo
O de que precisamos
Inventamos até
O de que não precisamos
Aí torcemos a vida
Foi o que viu o sábio
Observando o homem
Em sua oficina de inventar

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

AMAR

Tem explicação pra te amar?
Tem sim.
Só que não sei explicar.
Prefiro sentir.
Prefiro sentir.
Prefiro sentir.
Prefiro te sentir.

Sem ti não dá.

ACHO QUE SOU LOUCO...


Por mim eu parava tudo
E ficava contigo.
Você sabe que sou louco
O suficiente pra essas loucuras.

Por mim jogava tudo pro alto
E pulava nos teus braços.
Perdi o medo do escuro
Quando na primeira vez
Te vi na penumbra.

Perdi minha fobia
De ambiente fechado
Desde o primeiro dia
Que ficamos
A sós.

Aprendi a disfarçar
Desde o dia quando
Te convenci a deixar a multidão
E ficarmos sós. Nós dois.

Consigo prender o fôlego
Por mais tempo
Que o necessário
Quando nos beijamos.

O que mais falta aprender?

Diz baixinho no pé do meu ouvido...

GATO E RATO

Ele: Opa… Desculpa. Esbarrei em ti.

Ele: Foi sem querer.

Ela: Me ajuda a fazer o almoço?

Ele: Não. Estou lendo.

Ele: Se ajudar, posso esbarrar em ti de novo?

Ela: Quem sabe.

Ela: E não foi sem querer?

Ele: Foi. Mas dessa vez pode ser por querer.

Ele: Aceita?

Ele: Calor né?

Ele: Vou tomar banho.

Ele: Quer ir?

Ela: Não. O calor é seu.

Ele: Eita! Podia ser mais educada não?

Ele: Tá me perseguindo?

Ele: Vou pra geladeira tu vem junto.

Ele: Vou pra pia tu vai também.

Ele: Depois reclama se eu esbarrar em ti.

Ela: Pode esbarrar.

Ele: Ah, agora pode?

Ela: Com jeitinho pode.

Ela: Vai fazer o que mais tarde?

Ele: Depende.

Ela:  Voce é quem diz.

Ele: Ah, agora sou eu quem manda?


Ela: Com jeitinho é.

HOMENAGEM A FERREIRA GULAR

José Ribamar Ferreira
Mudou de nome.
Assim como mudou
Nossa percepção das coisas
Nossa visão das situações
Nosso modo de ver a vida.
Gular foi embora

Mas ficou.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

UM CONTO

O poder estava comigo. Disse para mim mesmo: hoje à tarde vou ficar em casa. Vou me dar de presente a tarde. Vou dormir. Vou ler. Sossegar. Escrever. Menos trabalhar.

Minha casa limpa de dar gosto, favor de minha mulher, e eu, depois do almoço estirado na cama, um livro nas mãos, mas não fui capaz de ler cinco páginas de um capítulo de dez. O sono me dominou.

Dormi. Sonhei com coisas que me deram saudades. Situações que me deram esperanças. Sonhei com coisas que me agitaram, mas que não foram capazes de me tirar de minha decisão de ficar invisível curtindo comigo mesmo a tarde que esse escolhi.

Quando deitei depois do almoço estava com minha mulher na cama, acordei e era meu filho que estava lá, estranho... Pernas limpas. Fortes. Grandes. Novas. Pensei: já tive pernas assim. Meu filho dormindo de bruços descobri nele um sinal na perna igual ao meu sendo a diferença que nele era na parte contrária da minha.

O ventilador soprava no quarto um barulho rouco. Acordei pelo costume de sair para trabalhar, mas dessa vez não iria, havia decidido ficar em casa. Uma parte do sonho que tive deixou em mim um gosto bom na minha alma. Quando a gente sonha os fatos acontecem em sequência como vê um filme sem comercial. Às vezes escolho com o que quero sonhar e dá certo, nessa tarde não escolhi. Sonhei coisas boas e outras não.

Sai da cama sem fazer barulho, meu filho dormia. Acho que como eu havia feito, ele deve ter decidido se dar aquela tarde, mas menino sempre tem as tardes livres. Peguei o livro para reiniciar a leitura de onde parei. A casa que continuava muito limpa me convidou a deitar no chão para ler.

Minha mulher trabalhava na máquina de coser falou qualquer coisa sem importância pra mim porque falou muito baixo. Acho que a seu modo estava em paz. Fazia o de que gostava. Desisti do livro e pensei em ligar a tv. Podia fazer o que quisesse nessa tarde. Tinha o poder para isso.

A vida lá fora não me interessava. Escrevi um poema pela metade esperando a inspiração chover sobre mim mais tarde. Inspiração é uma coisa alouca. Vem quando quer e desaparece na hora que lhe dá na telha.

Olha se tem café, disse minha mulher, em seguida comentou algo de minha neta imitando a vozinha dela e comentou de algo na rua, outro ventilador soprava um vento gostoso e um barulho chato e eu em mim mesmo.

Algo me aborreceu e tive que sair para resolver. Quebrou-se por um instante minha estabilidade. Resolvi. Era algo chato e para piorar debaixo do sol das três da tarde. Tomei um banho para resfriar os pensamentos, fazer o rescaldo e voltar para meu estado meditativo daquele dia.


CINISMO

Você não tem um carro?
Sorria.
Vão pensar que você tem.

O dinheiro é pouco?
Sorria.
Vão pensar que você tem mais que um pouco.

As bailarinas não são assim?
Sorriem
Com os dedos em carne viva enquanto dançam.

E todos as acham:
Felizes
Lindas
Leves.

E escreva. Escreva.
Escreva sobre tudo.
Fale dos outros.
Fale de você.
Fale das coisas.
Vão pensar que você sabe tudo.

Cite frases.
Escreva poemas.
Se aventure.

Mas nunca. Nunca mesmo esqueça de sorrir.
Sem seu sorriso você não é nada.


MIX

Vamos entrelaçar as línguas.
É estimulante.
É um exercício emocional.
É um exercício cerebral.

Faça isso!
Há um mundo
A ser explorado.

Diga eu te amo
Mas também:
je t’aime
Yo te amo
I love you

As línguas são órgãos
Sensoriais que têm a
Finalidade de excitar

O pensamento.

AS CORES DE FIDEL

Fidel que nasceu róseo
Ficou verde
Depois branco
E agora cinzas.

O povo:
Um cinza

OUTROS multicolores.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

MINHA CONVERSA COM A PEDRA

Ontem sentei para conversar com uma pedra. Ela me falou de muitas coisas.
Eu achava que pedra não tinha sentimento. Eu estava enganado.
A pedra me disse que tem um caminho e que quem acha o caminho das pedras é porque ficou mais sábio. A pedra me disse que tem medo de água. Água é teimosa. Embora a pedra seja dura a água bate até que fura. A pedra me disse que ficou toda orgulhosa de ter sido a personagem principal do poema do poeta: No meio do caminho tinha uma pedra. Tinha uma pedra no meio do caminho. Tinha uma pedra. No meio do caminho tinha uma pedra. Nunca me esquecerei desse acontecimento... Pedra no sapato é ruim, mas a pedra disse que cada um tem mesmo uma pedra no sapato, mas ela sente muito por isso. A pedra me disse que quem tem pecado não atira a primeira pedra. A pedra que é sempre calada em seu canto tirou o dia para conversar comigo. Quem atira pedra é loco, disse a pedra. Quem quebra pedra é porque não estudou. Quem quebra pedra enquanto descansa é escravo ou trabalhador mal pago. Quem é vidraça não atira pedra. Pedra é diferente da gente, mas ela tira sempre algum tempo para conversar com a gente. A vantagem de conversar com a pedra é que ela não tem pressa de ir-se embora.



terça-feira, 29 de novembro de 2016

AS AVENTURAS DE LUIZ MIGUEL (2)

As bicicletas não eram adequadas para aquilo. Pedalar em chão de cascalho e areia frouxa com altos e baixos, eram bicicletas comuns próprias para pequenos trajetos em ruas pavimentadas e em ritmo lento.
As idades eram bem diferentes. Somadas davam sessenta. Mas andávamos juntos, sentindo o ambiente, indo em direção da barragem de nossa cidade que dista de nossa casa uns seis quilômetros.
O horário também não era o melhor nem o mais adequado para quem pensa na saúde. O sol quente do meio dia, literalmente meio dia, quando o sol frita como o fogo frita a carne na frigideira a óleo quente.

Luiz Miguel cansado da agenda do dia anterior com banho de piscina, trilha de bicicleta nas matas que restauraram em nosso município que ainda não foram vítimas da urbanização, almoço fora de hora e mais e mais; apesar disso não rejeitou meu convite: vamos pedalar até a barragem?

Chegamos. Bicicletas debaixo de uma árvore, sentamos à sombra, sobre as pedras de seixo típicas de beira de rio, o vento fresco convidava a uma soneca e tínhamos o poder de dizer vou ou não vou entregar na água, decidimos que não, bastava ficar ali na companhia um do outro. A certo ponto decidimos voltar pra casa porque a fome nos convidava.

Pedalando com o mesmo sol da ida, devagar e conversando qualquer coisa recebi um novo convite. Ver a fonte de água que a população se reunia para retirar água boa de um poço profundo abandonado depois que passou a se vender garrafões de água adicionada de sais, água boa abandonada.

O vizinho do poço, um morador meu conhecido, assustou-se comigo e Miguel, ele não havia nos reconhecido e veio fechar o portão, puxamos conversa com ele que nos reconheceu depois e mostrou um carinho que deixou Miguel orgulhoso. Pai, faz cinco anos que o Edinho não me via e ainda lembrou de mim! Saiu com sorrido no rosto e vento na cara conversando miolo de pote comigo e eu com ele.

Novo convite. Conhecer um caminho novo que dava acesso a nossa casa, conversa sem importância, mas gostosa se travava entre nós ao ritmo da pedalada. Encontramos prazer num passeio meio improvisado, simples só pelo prazer da amizade um com o outro.


SISTEMA FECHADO



 A sociologia

A psicologia

A filosofia

A Psiquiatria

A geografia

A pedagogia

Não sabe fazer milagre

Não sabe repetir milagre

Em seus tubos de ensaios

O cientista

O laboratorista

O geneticista

O ginecologista

O oncologista



Não sabe fazer milagre

Não sabe repetir milagre

Em seus tubos de ensaio

O Marxista

O comunista

O capitalista

O socialista

O utopista

O fascista

O anarquista



Não sabe fazer milagre

Não sabe repetir milagre

Em seus tubos de ensaios


Logo, concluem os tais: NÃO HÁ MILAGRE.

Que vida besta essa dos ensaistas.

UM MOMENTO DE SILÊNCIO


Hoje que estou
Só comigo mesmo.

Tento retirar
Algumas palavras
Do fundo desse
Momento introvertido.

Observo detalhes.
Detalhes que noutro
Dia não teria
O mesmo valor
Que tem nesse
Momento meu
Comigo mesmo

Respiro o vento
Da noite na praça
Fria em que me 
Sento comigo 
Ladeado de árvores
Em silêncio vendo 
Pessoas passar.

Não é apenas gente
São pessoas carregadas
De detalhes como a 
Beleza da menina que
Em seus quinze anos
Aflora beleza
E a mulher madura
Acalentando o filho
No colo conversando
Com o marido assuntos
Sem importância e
Rindo.

Passa o soldado
Acompanhado
Do soldado armado
Guarnecendo somente
A paz do meu momento.

Os meninos que brincam
Na praça nem pensam
No tempo e fazem dele
Um tempo eterno e me
Aborrecem com barulho
Desnecessário quando
Eu achava que tudo deveria 
Estar à minha moda.

Percebi que não sei
Estar em silêncio e
Fico o tempo todo
Procurando o que
Fazer mas não querendo
Sair de meu momento
De reclusão.

Meu momento
De silêncio
Me faz valorizar
Detalhes que não
Veria noutro dia.

Tudo à minha volta
Está às voltas me
Convidando à pressa
Eu em mim mesmo
Olho como que de 
Longe o barulho.


Eu fico por aqui...

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Um pé de que?

  
O pé das árvores não anda.
O pé da frente nem sempre está na frente.
O pé de trás nem sempre está atrás.
O pé da mesa são quatro.
Será por isso que ela não cai?

Tudo tem um pé?

Um pe de arroz.
Um pe de feijão.
Um pe de emprego.
Um pe de amor.
Um pe de compreensão.
Um pe de carinho.
Um pe de afeição.
Um pe de respeito.
Um pe de fora ladrão!
Um pe de silêncio.
Um pe de explicação.
Um pé de cama deixa as pernas bambas.

Será mesmo que tem pé pra tudo?

Será mesmo que tem pé sem cabeça?

Não. Mas tem conversa sem pé nem cabeça.

Maria queria só um pezinho pra namorar.
Depois queria só um pezinho de nada pra separar.


Será mesmo que tem pé de tudo?

O DIA DO AMOR

Hoje o amor acordou comigo
Saiu para trabalhar
Deixou seu aroma
Uma doce lembrança

E o desejo em mim de que volte logo.

A DANÇA DA VIDA


A mulher passa a roupa
Que vai ficar passada
O homem passa o tempo
Que vai ficar passado.

Tudo fica passado.

MEU TRANSE



Olha nos meus olhos.
Me responde por quê:
Eu tão carente e
Você tão segura.

Me diz de onde
Vem essa impressão
Que você tem gosto
Doce que não enjoa?

Me diz de onde
Vem essa sensação
De ti achar palatável?
Macia
Crocante
Picante...

Me diz de onde
Vem essa sensação
Que todos os cheiros
Cheirosos da natureza
Saem de ti?

Eu poderia ser
Só um pouco atrevidinho
E pedir um lugarzinho
Nesse teu colo macio,
Cheiroso e ficar ali
Quietinho até dormir?

Juro, fico quietinho.
Como um menino que jura
Que não vai pegar o doce
Esquecido em cima da mesa.

Me dá um friozinho
Na espinha só de ver
O mover desses teus lábios.

O que tem nesse batom
Que deixa gosto
E nenhuma vontade
De separar os meus
Dos teus lábios?

Dá pra baixar a guarda

Só um pouquinho, Senhora?

A CAIXA DE PANDORA



Na Caixa de pandora
Continha todos os males
Do mundo.

Tantos Mais
Tem o coração
Do Homem.


Pandora ficaria surpresa.

A MENINA DA PADARIA


Bom dia
Não disse ela
com palavras.

Disse
com um largo sorriso
logo de manhã cêdo.

Seu dia
havia começado
Cêdo.

O meu somente
logo mais.

Mas foi ali
que ganhei o dia:
no balcão da padaria.

Sempre volto ali
pra levar pão
e alegria

no balcão da padaria.

Em tudo há poesia


A Casa

Ainda não inventaram uma casa que não precise de faxina e manutenção.
A minha mesmo está sempre precisando.
De tempos em tempos preciso cortar o cabelo.
Fazer a unha.
Esfoliar a pele.
Tomar um banho mais demorado.
Passar um gel na barba.
Balancear a alimentação.
Lavar a roupa.
Ir a um restaurante.
Curtir uma praia.
Dormir até mais tarde.
Viajar.
Ler.
Sorrir.
Gastar além da conta (de vez em quando).
Pedalar sem rumo e sem hora.
Jogar conversa fora.

Ver amigos.

sábado, 26 de novembro de 2016

VAMOS SEGREDAR?

Me
Conta
Um
Segredo?

Me
faz
Teu
Confidente,

Me
Faz
Ser
Teu
Por
Inteiro.

Me
Conta
Um
Segredo?

LUGAR ERRADO

Ai, que preguiça de falar!
Enquanto à minha volta pessoas
Têm preguiça de fazer silêncio.
Preguiça de falar e percebo
Tantas palavras soltas ao vento.

Ops.! Entrei no lugar errado...

AS AVENTURAS DE LUIZ MIGUEL (1)

Meu filho de catorze anos chegou a casa com a voz cheia de entusiasmo mostrando os roxos do joelho e da perna e o corte na mão de um eletrizante momento com os amigos num parque improvisado de parkour.

Ouvia a narração lá do quarto onde eu havia estirado minhas pernas depois de um dia ocupado em provas da faculdade e tentando chegar o mais cedo possível a minha casa e os transportes coletivos públicos não ajudando.

A mãe vocifera no meio da narração: _ você vai acabar é fazendo todos nós corrermos para o hospital quando tirar o braço do lugar como seu irmão nessas brincadeiras de doido! A voz da mãe se alterou mais ainda quando em reposta o menino falou algo sem nexo com a situação proposta por ela. Acho por causa da adrenalina que ainda corria em seu corpo.

O parque estava dentro dele e não importava o que a mãe dissesse. Dentro da mente as lembranças se remexiam agitando ainda mais o compasso do coração. Foi obrigado a tomar banho se não ia para cama cheio de poeira, fuligem de carros, areia e uma mente agitada que fazia transbordar entusiasmo daquele momento eterno.

Na manhã seguinte ainda borbulhando a alegria daquele momento com os amigos foi ao quarto mostrar orgulhoso os roxos do joelho e das pernas e contar tudo de novo, eu havia acabado de chegar da compra do café da manhã, ele já me adiantava que hoje a aventura ia continuar.

Gosto de aventura ao ar livre, por isso fui contagiado pelo entusiasmo dele e me senti convidado a ir lá ao parque também. É mágico como alguns machucados trazem alegria, basta que sejam adquiridos no prazer de uma aventura com os amigos.

No dia seguinte um amigo chegou a nossa casa no horário do café da manhã e meu filho desata a contar tudo de novo, não havia nada mais importante para ele.

E a conversa continuava dessa vez me falando dos obstáculos colocados no parque. Percebi que era tudo improvisado e conclui como os prazeres não agendados tem em si a magia de nos proporcionar prazer.

A noite deve ter sido agitada; dessa vez de tão cansado que eu estava não acordei na madrugada como de costume e deva aquela espiadela nele enquanto dormia; mas julgo que a noite foi agitada porque é isso que acontece quando passamos por alguma experiência chocante em nossas vidas.

Oito horas da manhã, planos feitos. Agora era fazer trilha de bicicleta com a galera, tomar banho de piscina e voltar mais tarde.


quarta-feira, 23 de novembro de 2016

UMA CANTADA BESTA

Minha Tv. Está com você
Minha cama você levou
Meu lençol favorito foi no meio de suas coisas
Na partida, talvez por engano ou por maldade mesmo
Você levou você de mim
E deixou saudade.

Já que tudo
De um pouco valioso pra mim
Foi com você
Fiquei pensando:

Posso ir aí
Ver Tv. Contigo
Deitar na minha cama
Aquecer-me com meu lençol
Matar a saudade?

Eu levo óleo
Pipoca

A gente faz um programa…

LUIZ MIGUEL – O MENINO QUE FEZ NEVAR NO NORDESTE


Nordeste é terra de cabra da peste.
De gente que sabe viver.
É daqui um moleque
Como se diz por aqui, um pivete
De floridos doze anos
Que de sabido tem muito mais que isso
Que chover não sabe fazer
Mas pra fazer nevar é bem sabido

Nevar no Nordeste?
Isso mesmo. Obra de um sabido pivete
Acreditem! Sou nordestino. Não minto
Mas também não desminto o contado.
Conto a história e dou por confirmado.

Menino nordestino que é
Bem cedinho me chamou
Me contou de mansinho o que sonhou:
Sonhou que nevava no Nordeste

Asseguro que não é invenção
Ele até acordou e pegou um flocão
Fez um boneco de neve
Jogo bolas brancas de neve nos colegas
Correu, brincou e até esquiou na neve.

Eu como pai da história não duvido
Nem de uma letra. Não sou besta
Menino nordestino é cabra que tem tino
Sabe como fazer.

Pra fazer nevar no Nordeste
Neste torrão abençoado
Basta dormir e sonhar
Que a neve vai cair
E quando ela cair correr, pular
Brincar, se divertir.

Moleque no Nordeste
É mesmo cabra da peste
Faz até nevar

E olhe olhe de quem duvidar!

A FORÇA DA RAIZ


Instrui as minhas mãos para a peleja, de maneira que um arco de cobre se quebra pelos meus braços (2 Samuel 22:35).

Não entendemos
Pouco percebemos a força
Da raiz que quebra o chão
Que calmamente se liberta
Do que a quer deter na prisão

Pequena raiz
Dotada de força descomunal
Que não grita não geme
Mas vence o mal

Deus misterioso
Senhor habilidoso
Escondeu a força
No coração da raiz

O que me faz ter a visão
Que o guerreiro Davi
Estava certo em dizer:

(Deus) Prepara as minhas mãos
 De maneira que um arco
(de cobre )

Se quebra pelos meus braços.

terça-feira, 22 de novembro de 2016

BIRRA DE NAMORADOS

Namorado: Se eu te desse cartaz que tamanho você queria, amor?
Namorado: Eu penso em algo do tamanho de um outdoor.
Namorado: Você acha que estaria bom de tamanho?
Namorado: E eu ainda exporia num lugar onde passam muitas pessoas
Para que todos vissem.
Namorado: Você acha exagerado?
Namorado: Eu não acho. Me inspirei em Cazuza na música
Exagerado, jogado a teus pés eu sou mesmo exagerado.
Namorada: Ah! mas isso foi o Cazuza.
Namorado: E só ele pode ser exagerado no amor.
Um reles mortal como eu não pode?
Namorada: Mas é que eu fico meio sem jeito de receber cartaz tão grande.
Namorado: Ora, mas é só por isso?
Namorado: Então me recolho à minha insignificância.
Namorada: Mas também não precisa ser tão radical assim!
Namorado: Então decida-se!

Namorado: Que tamanho de cartaz você quer que eu te dê?

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

ESTÁ TUDO QUIETO AQUI DENTRO

Espia estou quieto
Aqui dentro
Rede armada
Um programa caipira
Uma comidinha simples
Espia está
Tudo quieto

Aqui dentro…

EU ANDEI DE TREM

Eu andei de trem
Barulhento sobre os trilhos
Gente conversando
E o trem dançando
Passava de estação em estação
Balançando e admirando
Cheguei a Estação da Prima-Vera…
O trem sobre os trilhos
Balançando seguia apitando
Avisando: cuidado com a vida!
Estamos chegando
Trazendo alegria.
O trem dançando
Passava de estação em estação
Cheguei à estação da Prima-Vera…
A vida não é só de flores
Mas na vida tem muitas flores
O trem dançando
Passava de estação em estação

Cheguei à estação da Prima-Vera…

LAMENTAÇÕES DE JEREMIAS

Quando são pequenos
Os ensinamos e os
Colocamos no caminho
Ficam ali quietinhos
Sem se desviar do caminho

Mas eles crescem
Pensam que podem
Reinventar o caminho

E vão se desviando
Aos pouquinhos
Pensando estarem
Todos certinhos

Vão aqui e acolá
Alguns para não

Mais voltar…

A VIDA

A vida passa
Bem aqui do lado
Aqui dentro balança
Se apressa e se aquieta
Ela é boa

Ela voa.

A FLOR DO PENSAMENTO

Uma flor ao vento
É o pensamento.
Queda pra lá e pra cá
Captura tudo num momento
Depois descansa
Num outro pensamento.